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    Sistemas de informação sobre produtividade balizando decisões sobre a execução da estrutura de concreto armado | Crédito Foto - montagem: Divulgação
Gestão da produtividade da mão de obra

Opinião | Prof. Dr. Ubiraci Espinelli Lemes de Souza, Departamento de Engenharia de Construção Civil da Escola Politécnica – USP

Na área de conhecimento sobre Tecnologia e Gestão na Produção e em Projetos, no início da década de 1990, o Departamento de Engenharia de Construção Civil da Escola Politécnica da USP foi pioneiro na percepção de que os profissionais de Engenharia Civil precisavam ter uma bagagem sólida de formação sobre gestão dos processos construtivos, além da excelente formação em projetos do produto. E, em gestão, a questão da produtividade - já abordada pela indústria seriada mais de um século antes - passou a se tornar o foco de estudos e projetos tratados, cada vez mais, pelo Departamento. Assim, desde 1992, com o objetivo de gerar conhecimento aprofundado sobre o tema, busquei, em âmbito internacional, as principais referências e centros de estudos com excelência reconhecida.

Na Pennsylvania State University, sob a orientação do Prof. Dr. H. Randolph Thomas, reconhecido especialista mundial no estudo da produtividade da mão-de-obra na Construção Civil, elaborei o meu doutorado, que foi apresentado na Escola Politécnica sob a orientação Prof. Dr. Vahan Agopyan, atual reitor da USP, que integra o corpo docente do Departamento. Meu doutoramento marcou o ingresso do tema nas nossas disciplinas de graduação, especialização e pós-graduação, e a produtividade passou a fazer parte das aulas e a ser objeto de pesquisa para mestrados e doutorados da Escola. Hoje, a nossa graduação está ganhando uma disciplina específica sobre o assunto e várias teses, artigos e livros foram gerados a partir da minha atuação e a de vários colegas do Departamento. Além disso, contribuímos fortemente para que o mercado do setor passasse a compreender que a gestão da produtividade é uma ferramenta fundamentalmente necessária para a eficiência da produção nas obras de Construção.

São várias as razões para considerarmos a Construção como um setor com necessidades atípicas e específicas: cada obra a ser realizada requer a criação de um canteiro de obras específico, portanto, em uma alusão ao setor automotivo, não há uma única fábrica, dificultando o estabelecimento de inovações que garantam a produtividade em larga escala, como feito por Taylor durante a revolução industrial; o produto a ser utilizado varia de modo considerável de uma obra para outra; no canteiro de obras, trabalha-se sob a ação das intempéries; nos locais das obras, pessoas de diversas formações e com diversos objetivos circulam diariamente e, ainda, desenvolvem tarefas diferentes e simultâneas, o que requer flexibilidade com segurança. Tais características, entre outras, ao longo da história do setor, justificaram atitudes conservadoras por parte dos gestores de empreendimentos. Neste contexto, há anos, o Departamento forma líderes e gestores da Construção para tomarem as rédeas da gestão da produtividade e aplicarem conhecimento inovador para aprimorar, cada vez mais, a Construção Civil.

Estudo da produtividade balizando desenvolvimento de sistema construtivo | Crédito Foto – montagem: Divulgação

Atualmente, no Brasil, já é comum que os construtores saibam que a Razão Unitária de Produção (RUP) é um indicador talhado para avaliar a produtividade no setor, por exemplo. Também já é comum compreenderem que o Modelo dos Fatores permite entender os efeitos das ações quanto à escolha e ao uso de produtos, e, ainda, quanto ao processo e às falhas na gestão e na eficiência da obra. O pioneirismo do Departamento, diretamente ou indiretamente - pela atuação dos profissionais que tradicionalmente formou com excelência -, tem contribuído de modo efetivo para que a produtividade seja uma ferramenta de gestão aplicada não somente no canteiro de obras, mas também aplicada com sucesso no orçamento, no planejamento, na área de suprimentos, nos projetos e mesmo na concepção do empreendimento enquanto negócio.

A gestão da produtividade gera ganhos que podem ser compartilhados pela empresa e seus trabalhadores. Nos últimos 20 anos, tenho acompanhado trabalhos de construção que tiveram a gestão da produtividade como suporte, tanto em obras grandes, como nas de menor porte. O Departamento trabalha esse tema desde a criação de um antigo acordo de pesquisa com uma das maiores construtoras habitacionais do país, na década de 1990, época em que a produção de prédios de alvenaria estrutural teve uma mudança drástica de eficiência. Essa experiência é, ainda hoje, vista pelo mercado como exemplo de boas práticas. Houve, também, a formação de grupos de empresas que implementaram programas de melhoria da produtividade, em geral com o apoio de sindicatos (como o Sinduscon-SP) ou de entidades representativas de mercados locais, tais como aconteceu em Pernambuco e Minas Gerais. Percebeu-se, nestes projetos, uma melhora de produtividade acima de 30%, pouco tempo depois da implementação deste tipo de gestão. Esses conhecimentos também alicerçaram a introdução, em empresas de médio a grande porte, da prática de produção de projetos de canteiros de obras, definição de planos de ataque (base para o planejamento das obras) e estudos de macro e micrologística para a produção. A adoção de critérios de produtividade por essas empresas influenciaram a postura das empresas de menor porte.

No Brasil, cabe dizer que as obras menores e sem gestão profissional ainda são as mais ineficientes; representam, portanto, e na mesma medida, amplo potencial de ganhos e devem ser olhadas com muita atenção. Além disso, grandes contratantes, como a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) e diversas associações que representam construtores, como a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), passaram a incentivar a discussão da produtividade em suas atividades e na de seus contratados ou representados. Com isto, a sociedade ganha com a melhora de eficiência.

No cenário atual de valorização da justiça nas relações econômicas, estou realizando estudos para o aprimoramento do sistema orçamentário da Caixa Econômica Federal e aplicando esse conhecimento na geração de composições unitárias precisas, para que as obras possam ser realizadas com valores corretos de investimentos, tanto do poder público quanto dos construtores. Assim, a gestão da produtividade é a atual chave para que as empresas ampliem seus lucros e os trabalhadores tenham oportunidades de desenvolver trabalhos mais qualificados e com remunerações melhores. O aumento da eficiência é uma das ações mais importantes para estimular o desenvolvimento sustentável do Brasil no setor da Construção Civil que, embora tenha melhorado nos últimos anos, tem ainda inúmeras oportunidades de avanço para atingir os patamares alcançados pelos países desenvolvidos. É, portanto, um papel dos gestores contribuir para a melhora da produtividade de modo sistemático.

Em âmbito nacional e internacional, o país precisa ser cada vez mais eficiente. E a Construção Civil, uma das principais representantes da nossa economia, precisa investir em produtividade. Trata-se de uma ação que significa melhorar nosso setor e o país. Neste final de ciclo difícil, acredito que há condições para que se disseminem ainda mais os conceitos de gestão da produtividade nas empresas. Em um cenário que valoriza cada vez mais a eficiência para investimentos em empreendimentos, acredito que os gestores já estão dedicando mais atenção às questões que envolvem produtividade. As empresas também percebem que ser produtivo será um forte diferencial, em muitos casos vital, para a fase de retomada que está por vir e que, por sua vez, só se sustentará em bases mais sólidas de eficiência.

As inovações (e a industrialização como vertente para a construção) devem ser buscadas nos três fatores que fazem a produtividade variar: o produto concebido, o processo para obtê-lo e a organização do trabalho para operar estes processos. Portanto, sob o comando da gestão da produtividade, as marcas da nova Construção Civil serão as novas posturas de projeto e esforços para otimização de processos produtivos, a valorização das atividades de planejamento, orçamento, suprimentos e concepção do canteiro de obras e sua logística, além de mais atenção na implementação desses. Aqueles que ainda não estiverem preparados devem compensar esse atraso, para não perderem as novas oportunidades que vão surgir para os mais produtivos.